Destruição e desolação provocadas pelo fogo no Chile

Veja o testemunho daqueles que levam ajuda às vítimas

Nos últimos meses, devido à seca que se vive no Chile nesta época do ano, nossas irmãs da Comunidade Mar a Dentro da missão de Concepción se depararam com uma triste realidade: as numerosas queimadas que deixam rastros de destruição por onde passam. Segue um comovente testemunho do que ali se vive.

O objetivo era levar ajuda às vítimas em Hualqui. Assim indicava o convite feito por Vilma Alberti, membro da Comunidade Mar a Dentro. Ela junto a Lucinéia Ferreira e Lea Biazeto, todas missionárias brasileiras que trabalham  desde o início do ano passado em Chiguayante, estava comovida pelos devastadores incêndios florestais que atormentavam a zona  a alguns dias  e atónitas pela capacidade de resiliência dos chilenos diante de tanta tragédia que assola permanentemente o país.

Domingo, 05 de fevereiro ás 15h15 três veículos partem rumo a Hualqui levando ajuda para três famílias que haviam perdido tudo pela ação das chamas. A guia era Virgínia Parra, residente em Hualqui, que havia conhecido os casos alguns dias antes.

Segue-se a Hualqui rumo ao sul pela estrada à Talcamávida, seguindo a margem do Rio Bío Bío e paralela a linha ferroviária de San Rosendo. Passa-se por esse local e a longa viagem continua em meio aos bosques sem ter rastros do incêndio.

Cerca de 80 km de Concepción e à uma hora e meia de viagem veem-se os sinais de destruição. Um portão metálico verde sustenta uma bandeira chilena presa e um letreiro que mostra que aí se vive um drama. Chegavam ao primeiro lugar que se buscava.

  “Não salvamos nada”

Claudio Garcés Durán (62) tinha sua casa no setor La Palma. Vive ali há nove anos junto com sua esposa cega, Luiza, e três netos. Antes vivia em Chigauyante e trabalhava como motorista de Ônibus. Como amante do campo decidiu mudar de vida e morar ali, no meio da solidão, com seus pomares e na tranquilidade.

Em seu terreno de sete hectares se dedicava a agricultura plantando batatas, cebolas, tomates e cereais que vendia a comerciantes de Talcamávida e Hualqui.

“Este era um lindo lugar”- disse hoje no meio de um panorama desolador – se tivesse conhecido antes seguramente lhe encantaria. Havia uma área ali em cima de onde se via todo este lugar”. Acrescenta  que nas noites estreladas  de verão, especialmente no ano Novo, se conseguia ver o esplendor das luzes que poderiam ser de Rere ou Santa Juana.

A casa da família estava em um pequeno alto onde se observa o contorno sinuoso do lugar, rodeado pelas altas colinas com pinheiros e eucaliptos. Hoje a maior parte deles está queimada e grandes manchas negras fazem um tapete no chão por toda a parte.

O fogo chegou improvisamente do sul no lugar na quarta-feira, às 13h. “Em menos de meia hora arrasou tudo – assinala Garcés com uma pasma tranquilidade –, não pude tirar nada, nem minha carteira de identidade. Peguei minha mulher e fugimos como podíamos até o caminho, para poder nos salvar. Saímos sem nada”.

Garcés perdeu totalmente sua casa, suas ferramentas de trabalho, suas galinhas, perus e cavalos, tudo. Graças a ajuda que recebeu na quinta-feira da semana passada de um grupo de jovens que chegaram de Chillán, pôde limpar o lugar. O líder comunitário de Talcamávida os levou.

Hoje se observa um monte de latas de zinco retorcidas, restos quase fundidos de fogões que tinha em sua casa (um a lenha, outro a gás e um elétrico) – “este último para que minha mulher que é cega usasse”; botijões de gás que estouraram, uma secadora elétrica, uma pequena máquina para arrastar o arado, uma banheira, uma máquina de soldar, um aquecedor, a bomba elétrica de seu poço etc. Os móveis, alimentos e roupas desapareceram. Tudo se queimou ou ficou inutilizável. Ele lamenta especialmente a perda de suas ferramentas de trabalho. “Vivíamos tranquilos aqui. – fala recordando os momentos anteriores à tragédia – A casa tinha sete dormitórios para quando vinha a família, além de sala de estar, sala de jantar, cozinha e banheiro. Tínhamos luz, água e a beleza de um lugar tranquilo que nos dava nosso sustento. Nem sequer pude tirar uma panela”

“Seguiremos em frente”. Hoje a família Garcés, sentada em pequenos   caixotes e dormindo em três barracas improvisadas, tenta suportar ou lidar com a dor da perda. Se alguém lhe pergunta como está o ânimo, sem perder a calma responde: “temos que seguir em frente e não há outra coisa a fazer, deveremos fazer uma casa e não há outra coisa a fazer. Vai custar, mas temos que seguir em frente”. Sua mulher, Luisa, permanece sentada junto a uma das barracas. Uma de suas filhas e uma neta a acompanham junto à mesa portátil e as barracas que lhes servem de lar. Esta com voz pausada e tranquila só têm palavras de agradecimento a Deus por ter salvado suas vidas e por aqueles que chegam para dar apoio. Inclusive reitera seu otimismo quando convida prontamente os que levam ajuda para tomar um mate.

(Texto de Juan Costa, fotos e tradução de Vilma Alberti e Ita Lara)

 

 

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