O que viu o Todo-poderoso quando olhou para sua “pobre serva”?

Recordando que a 32ª Jornada Mundial da Juventude em 2017 tem como tema “O Todo-poderoso realizou grandes coisas em meu favor” e que nesse ano o itinerário espiritual tem como caminho o passado, convido você para uma viagem a sua própria história para reconhecer nela as maravilhas de Deus. Nem sempre é fácil olhar para o baú de nossas lembranças e de pronto encontrarmos os momentos mais felizes de nossa vida, porque as experiências dolorosas tendem a saltar diante dos nossos olhos. Para muitos, o fazer memória dos bons acontecimentos e relembrar os acontecimentos mais felizes devem ser um exercício constante e às vezes até exigente, mas necessariamente importante para a vivência de nossa fé no relacionamento com Deus, com os irmãos da Igreja e com o mundo.

Pondo em prática: quais são as suas lembranças mais agradáveis? No Magnificat, a Virgem Maria recorda os grandes feitos de Deus na história de Israel, entretanto, exatamente no momento no qual vivia, as coisas não estavam muito bem, ainda que tenham sido bem piores. As situações difíceis atuais não a impediram de reconhecer o “braço poderoso” do Altíssimo ou “a força de Seu braço” (Lc 1,51a) que “dispersou os homens de coração orgulhoso” (1,51b) e “exaltou os humildes” (1,52b). Bom, se você exercita a gratidão, certamente, ainda que precisando de um tempo, já deve ter respondido a pergunta acima. Se sim, qual a relação de sua resposta com a expressão acima: “exaltou os humildes”?

Ao reconhecer Deus como “o Todo-poderoso”, também admitimos que estamos submetidos a Ele e que ninguém pode inteligentemente querer o Seu lugar ou Seu ser, ou seja, somos “em tudo agraciados”. Reconhecendo Sua ipseidade como Criador, só nos cabe o posto de criaturas e isto é maravilhoso, pois somente assim reconheceremos Suas maravilhas em nossa própria história de salvação, a exemplo da Virgem de Nazaré. Se não somos verdadeiros em reconhecer a diferença existente na realidade em que vivemos, por exemplo, em mais velhos e mais novos, homem e mulher, autoridade e subordinado, etc., perdemos os parâmetros que garantem os limites saudáveis e seguros nos relacionamentos com as pessoas e com o mundo.

Jesus e “os pequeninos”

Nosso Senhor Jesus também evidenciou as maravilhas do Pai nos mais humildes ao dizer: “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos. Sim, Pai, eu te bendigo, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11,25b-26). Mas o que Ele revelou? Aquilo que disse aos seus discípulos “na escuridão” e “ao ouvido” e que eles deveriam dizer “às claras” e “de cima dos telhados” (10,27) e os fez anunciar “às ovelhas perdidas” (10,6), “que o Reino dos céus está próximo” e ordenou que comprovassem isso com milagres curando os doentes, ressuscitando os mortos, purificando os leprosos e expulsando os demônios (10,8b). Ora, isso nada mais era que dar testemunho de Jesus, o enviado do Pai para nos salvar do pecado e suas consequências: “Quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus” (10,32). Logo, dar testemunho de Jesus não é apenas falar do Seu amor e obediência à vontade do Pai, mas propagar a inimaginável intimidade, ternura e confiança que havia entre os dois: “Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo” (11,27).

O humilde é aquele que responde sim ao convite, ao projeto de Jesus para participar desta perfeita e divina relação de amor, pois fomos criados para isso, criados a sua “imagem e semelhança” para vivermos o amor, agirmos pelo amor e superar todo sofrimento no amor. Para alcançarmos este propósito é necessário deixar nossos projetos baseados em nosso egoísmo e seus filhos, o orgulho e vaidade: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve (Mt 11,28-30). Como em Nossa Senhora e os “pequeninos”, a humildade permite reconhecer a obra do Todo-poderoso em nossas vidas e também acolher a boa-nova que o nosso Salvador nos trouxe por meio de Seus ensinamentos, milagres, Seu supremo testemunho de amor na cruz e ressurreição.

Características da humildade

Dentre as característica da humildade, vemos que ela é neta da temperança e filha da modéstia interior (modera e reprime os ímpetos desordenados da soberba, da ambição e do espírito de independência), esforça-se por se manter em prudente reserva no que diz respeito a si e é relativo aos outros, tem um modesto conceito de si mesma e se regozija quanto aos outros participam, fogem da honrarias, não fala de si e suporta a humilhações com paciência e júbilo, não inventa desculpas para as próprias falhas, pois ela é a condição indispensável para que a verdade em nós permaneça, já que verdade e humildade são uma só e mesma coisa.

Vimos acima que reconhecer a Deus e tê-Lo em devida consideração (por consequência, ter o conhecimento de nós mesmos) é uma condição da humildade. É este autoconhecimento a partir do reconhecimento de Deus que leva à consideração de que todo o bem que há em nós e do qual fomos instrumentos é devido a Deus e obra de Sua providência, gerando a profunda convicção do nosso nada e da nossa capital incapacidade para produzir o bem por nós mesmos.

O orgulho

Já nas características da presença do orgulho, encontramos a admiração da própria excelência, o atribuir tudo a si, a extrema sensibilidade pela menor falta de consideração, pela mais leve suspeita ou insignificante censura, o melindre quanto ao ponto de honra, lhes interessando só o que aparece e causa admiração; é um exímio crítico, tem seu próprio tribunal, é juiz de todos e chegar a se ver como um semideus que tudo sabe e nada teme, não precisando de conselhos e se fazendo inacessível, não admitindo a Igreja e nem o próprio Deus. Não faz acepção de pessoas, pois está presente nos governos e nos governados, nobres e plebeus, sábios e rústicos, isto desde a palavra da antiga serpente: “sereis com deuses” (Gn 3,5).

Um palco de batalha

Vamos destacar uma das características da pessoa humilde: não ceder ao desânimo. Diferente do cansaço, que tem uma conotação física, o desânimo está relacionando com a alma; poderíamos afirmar que desânimo é um cansaço na alma (ânimo). Ele é um sentimento que se opõe, sobretudo, à esperança, pois nos arranca toda a possibilidade de acharmos socorro, além de esvaziar coragem e nos deixar vulneráreis a um temor excessivo e a um abatimento imenso diante das dificuldades a princípio insolucionáveis, como se fossemos uma criança diante de um gigante que a faz tremer.

Impedida de usar a razão, enganada pelo demônio facilmente, a pessoa fica enredada em pensamentos tristes e desalentadores, presa a um movimento próprio do orgulho, que a faz crer que só depende dela todo bem e toda felicidade que deseja. Bastaria voltar-se para a misericórdia de Deus, reconhecer que todo bem que faz é por causa de Deus e nunca pela nossa beleza física ou por nossas boas ações. Como os santos, deveríamos por toda nossa confiança no Senhor sem demoras; lembremos que a humildade deles só lhes permitia ver a perfeição que não possuíam e também não tinham nada em si para garantir essa confiança no socorro de Deus. Fechando, os santos não confiaram em Deus porque eram fiéis a Ele; eles foram fiéis porque colocaram toda esperança Nele!

Conclusão

No espelho fiel do autoconhecimento vemos não somente que nada somos, mas que tudo recebemos de Deus. É a soberba uma mentira, uma deslealdade, um roubo que prejudica a glória de Deus, uma abominação aos olhos do Senhor e o que há de mais ridículo aos olhos dos homens razoáveis. Ter um conceito elevado de si mesmo é prova de espírito mesquinho e muito apoucado. E o que é a glória humana, a estima das criaturas! O orgulho é o amor de si mesmo levado até o desprezo de Deus; já a humildade é o amor de Deus impelido até ao ódio, bem compreendido, de si mesmo. É ela, pois, o triunfo completo e a verdadeira glorificação do Criador. Uma vida pura, virtuosa e feliz diante da presença Daquele que dá sentido a todas as coisas e cumpre suas promessas: eis a recompensa da humildade; eis o que viu o Todo-poderoso quando olhou para sua “pobre serva”, eis o que Ele quer ver em você!

 

Pe. Douglas Cardoso Metran,
Cofundador e Formador Geral da Comunidade Católica Mar a Dentro

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