Santa Teresa, mestra e doutorada vida quotidiana

Teresa-de-Jesus

Se depois de 500 anos do nascimento de Santa Teresa d’Ávila (1515-2015), os olhos da Igreja e de todos aqueles que buscam o caminho da verdade e da oração se fixam em Teresa, é porque ela nos seduz, nos atrai e tem alguma coisa importante para nos dizer.

Teresa não se preocupa em dar resposta “imediata” à realidade no seu tempo, mas dá resposta às ânsias, às angústias do ser humano que, apesar das mudanças tecnológicas, sociais, políticas, permanece sempre o mesmo. Nos escritos de Santa Teresa d’Ávila existe fundamentalmente duas pessoas que se buscam com amor e com âsia: Deus que busca o homem e o homem que busca Deus. João da Cruz, amigo, discípulo e mestre de Teresa diz: “Se é verdade que o homem busca Deus, é mais verdade que Deus busca o homem”. A doutrina de Teresa é como aquele vinho que quanto mais envelhece mais fragrância e sabor contém.

Celebrar os 500 anos de seu nascimento é, para todos nós, assumir uma atitude de discipulado, colocando-nos na escuta de Teresa que repete aos nossos corações a mensagem de Jesus. A Comunidade Mar a Dentro tem como mestra Teresa d’Ávila no caminho da oração, e a oração não é outra coisa que uma viagem “adentro” no coração de Deus ou, para usar uma expressão teresiana, no castelo interior, na morada mais central onde habita o rei, sua majestade.

A melhor e a mais bela imagem da dignidade humana encontramos em Teresa d’Ávila, onde ela nos fala de um diamante preciosíssimo e esplendoroso que tem a forma de um castelo. Este castelo é a alma humana, que na expressão teresiana é o ser integral do homem. A maneira melhor para conhecer a si mesmo é a oração, onde Deus com sua luz nos faz compreender que nós somos sua imagem e somos chamados a revelá-lo através da nossa vida de cada dia. Para Teresa, a oração não é um repouso nem um descanso, mas é um trabalho, às vezes doloroso e purificador através do qual nós chegamos a um íntimo diálogo de amor “com aquele que sabemos que nos ama”. É muito importante compreender a linguagem de Teresa, onde “a oração não consiste em muito pensar, mas em muito amar”.

Às vezes as pessoas perguntam: “É difícil rezar?” A resposta teresiana é simples: “É difícil e simples”. É difícil porque exige, por nossa parte, uma determinada determinação e a fidelidade: “em tomar o caminho da oração, não volte atrás, mas chegue à fonte e a nascente da água vida”. É fácil rezar porque a oração não é outra coisa que um diálogo de amizade que poderíamos traduzir: “deixar-se amar por Deus”. A viagem da oração nos leva a compreender que somente quem dialoga com Deus, com amor, é feliz.

A felicidade teresiana não é feita de coisas, mas de amizade, nem de muitas palavras, mas de estar com aquele que sabemos que nos ama. É no mistério da oração que nosso coração se incendeia de amor para com o outro, para com a Igreja, para com a missionariedade, para com a evangelização. Quem reza é sempre evangelizador, porque irradia o Deus que traz em si mesmo e a sua luz toca os corações mais endurecidos. Quem evangeliza tem necessidade de falar com Deus, para “não transmitir a si mesmo e nem as suas palavras, mas as palavras do Deus vivo, de Jesus”.

Depois de 500 anos, a doutrina de Teresa continua a nos questionar e a nos seduzir, porque não é doutrina, mas é experiência de vida. A experiência “é narrar a própria história, a própria vida, o próprio encontro com o Senhor”. É uma mística e uma teologia narrativa no estilo de João evangelista, que nos diz na primeira carta: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida, o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (cf. 1 Jo 1,1-3). Os místicos não estão preocupados em definir, mas em revelar e anunciar. Teresa, apaixonada pela pessoa de Jesus nos comunica o Jesus vivo de quem ela fez a experiência, um Jesus amigo e companheiro, e ela canta as misericórdias do Senhor.

teresaPara concluir esta pequena reflexão, podemos afirmar que toda a experiência autênctica de Deus nos leva ao amor fraterno. É Teresa que diz: “O único sinal que nós temos de que amamos verdadeiramente a Deus é quando nos amamos verdadeiramente uns aos outros” e o amor fraterno leva necessariamente à missão, porque não se pode conservar egoisticamente para nós o Deus que descobrimos na oração e na fraternidade. Faço votos de que a Comunidade Mar a Dentro, nestes 500 anos do nascimento de Santa Teresa d’Ávila e nos seus 25 anos de fundação, possa descobrir Teresa como mãe, como mestra e como doutora da Igreja que ensina pouco com as palavras e muito com sua vida.

Agradeço ao fundador da Comunidade por esta oportunidade que me deu de falar de Teresa d’Ávila, que ensina que a humildade é caminhar na verdade. Por isso, os 25 de fundação da Comunidade só me incentivam a saber escutar Teresa que, falando de Deus, fala de si mesma, e falando de si mesma, fala de Deus.

Frei Patricio Sciadini, OCD

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