Vocação: silêncio, palavra e obediência

Março de 2018

 “Não temas, Maria!
Encontraste graça junto de Deus”
Lc 1,30

 Maria é modelo de fé e de acolhida do Senhor, protótipo de toda vocação, personificação de todo peregrino. Ela é a mulher da escuta obediente ao preceito do Deus vivo: “Escuta Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único!” (Dt 6,4). Ela nos convida a participar, como jovens de fé, da sua entrega, da sua particular, ousada, e singular “aventura vocacional”.

Contemplemos juntos em oração o mistério dessa vocação que mudou a história do mundo. Com Maria aprendamos o silêncio, a palavra e a obediência. Abrigados nessas três dinâmicas, poderemos descobrir a nossa vocação e, consequentemente, o valor incalculável da amizade com Deus que cresce e se desenvolve através de um diálogo profundo e atencioso. A Palavra divina é o coração pulsante de Deus que deseja comunicar vida, salvação e alegria a todos que a ela se achegam e dela se nutrem. Deus nos confidencia, na intimidade, a nossa identidade, nossa mais leal e genuína vocação. Estar junto de Deus é estar na sua Palavra. A mesma Palavra que alcançou a Virgem deve suscitar em nós ação de graças e, ao mesmo tempo, a profunda consciência de que cada um é chamado a participar ativamente na obra da salvação.

A realidade que nos cerca nem sempre favorece para que façamos uma verdadeira e profunda experiência do mistério da comunicação divina. O imediatismo, a pressa, a agitação, o constante barulho sufocam a semente da Palavra e do mistério em nós. Isso dificulta o acolhimento, a compreensão e a lucidez para discernir aquilo que Deus espera de nós, o modo como executar na nossa história, em nosso cotidiano juvenil, a vocação à qual fomos destinados. Para alcançarmos essa compreensão e visão sublimes, precisamos aprender a ouvir o Senhor e também falar a Ele e com Ele. É no diálogo amoroso e respeitoso com Ele que sentiremos brotar nossa vocação.

Deus fala conosco de vários modos: não somente através da sua Palavra escrita, mas também através dos seus mensageiros, Anjos e homens. Pensemos que Deus dirige a cada instante a sua Palavra a nós através dos Seus Anjos. Cada dia acontece, em certo sentido, o mistério da anunciação na nossa vida.

Qual foi a reação de Maria diante da saudação do Anjo? “Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação”. Maria não se perturbou com a aparição do Anjo que entrou onde ela estava. A aparição do Anjo, sem que Maria se assustasse com isto, indica a sua abertura em relação à Palavra de Deus. O mensageiro de Deus pôde entrar porque o coração dela estava aberto e perfeitamente sintonizado com a Palavra de Deus.

Maria “pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação”. Ela é a Mulher do silêncio e da escuta. Em silêncio, Maria abre-se ao mistério da Palavra de Deus. A palavra grega pôs-se a pensar” é formada a partir da raiz grega “diálogo”, isto quer dizer: Maria inicia no silêncio do seu coração um diálogo interior com a Palavra de Deus para, com a ajuda do Espirito Santo, perscrutar a sua profundeza. É interessante notar que em Maria o diálogo inicia-se não com a palavra, mas no silêncio, na escuta. Para um coração aberto ao mistério, Deus está sempre a falar. A Palavra de Deus, ao fazer-se palavra humana, assume em certo sentido a imperfeição da palavra humana, mas ao mesmo tempo permanece nela a profundidade da comunicação Divina. Por isso, é uma Palavra insondável, que deve ser acolhida no silêncio. Deste silêncio do estar em comunhão com o Pai é que nascem as palavras.

Talvez saibamos falar “tantas línguas”, gírias, “tagarelice”, “treta”, fanfarronices… mas não saibamos apreciar o silêncio, a calma, a Palavra que veio de “longe” para nos encontrar, para nos instruir, para nos trazer alegria. Num mundo cheio de confusão e de mensagens de todo o gênero, o testemunho de Maria faz apreciar um silêncio espiritualmente rico e promove em nós o espirito contemplativo. Esta é a característica de um jovem sábio e inteligente diante de Deus: é aquele que, através da sua vida, do seu silêncio, da sua palavra desperta no mundo e nos outros o espanto, o fascínio e a novidade que só aquele que planta seu coração em Deus é capaz de transparecer. Como Maria somos chamados, nós, jovens Mar a Dentro, a dar diariamente, em nossa Lectio Divina, atenção à Palavra do Mestre e, assim, crescer na santidade, na compreensão da Palavra, meditando-a com humildade e paciência.

Maria acolhe a Palavra de Deus na fé obediente. Quando o Anjo Gabriel anunciou o plano de Deus: “Eis que conceberas e dará a luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus” (Lc 1,31-32), Maria não compreendeu como isto poderia se realizar. Ela aceitou o que humanamente parecia ser impossível, confiando-se Àquele a quem nada é impossível. Ressoa assim para nós uma palavra bastante familiar, que nos assemelha imediatamente a Maria: “Por causa da tua Palavra lançarei a rede” (Lc 5,5). Poderíamos inclusive dizer que a palavra daquela anunciação diária que invariavelmente recebemos do Senhor é esta: “Faze-te ao largo”, Duc in altum, mar a Dentro! (Lc 5,4)”.  Nossa vocação origina-se na obediência, desenvolve-se na confiança e se fortalece na entrega. O Papa Joao Paulo II observa: “Na Anunciação, de fato, Maria entregou-se a Deus completamente, manifestando “a obediência da fé” … Maria pronunciou este “fiat” mediante a fé. Foi mediante a fé que ela “se entregou a Deus” sem reservas e “se consagrou totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho” (São João Paulo II, Redemptoris Mater, 13).

Realmente a fé de Maria exprimiu-se numa obediência completa, sem ponderações, sem garantias e sem reservas. A sua obediência estava arraigada na mais profunda confiança no Senhor e em suas promessas. Por isso disse Isabel: “bem-aventurada és tu que acreditaste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1,45). A fé de Maria e um convite para basearmos a nossa vida, nossa juventude, nossas escolhas na escuta e no acolhimento da Palavra de Deus, porque a fé não é tanto a procura de Deus por parte do ser humano, mas é antes a aceitação por parte do homem de que Deus vem até ele e lhe dirige a Sua Palavra. Com efeito, ao Deus que, ao dirigir-nos Sua Palavra, se doa a nós, deveria corresponder a nossa resposta de fé, pela qual nos entregamos livre e totalmente a Ele. Com efeito, acreditar constitui a orientação fundamental da nossa vida. Crer não é apenas um tipo de pensamento, uma ideia; acreditar significa seguir as indicações que nos foram deixadas pela Palavra de Deus.

Concluímos com uma preciosa palavra do Papa Emérito Bento XVI: “Maria vive da palavra de Deus, é inundada pela palavra de Deus. E este estar imersa na palavra de Deus, este ser totalmente familiar com a palavra de Deus dá-lhe também a luz interior da sabedoria. Quem pensa com Deus pensa bem, e quem fala com Deus fala bem. E, assim, Maria fala conosco, fala a nós, convida-nos a conhecer a palavra de Deus, a amar a palavra de Deus, a viver com a palavra de Deus, a pensar com a palavra de Deus” (Bento XVI, 15/08/2005).

Silêncio fecundo, palavra humilde, obediência completa. A exemplo de Maria não tenhamos medo de nos colocar num estado de escuta, não temamos ouvir o Senhor, abandonar nosso projetos pessoais e segui-lo como todo o nosso coração. Maria que soube ouvir a Deus como ninguém se torna para nós “palavra viva” que, com sua competente experiência, diz a cada um de nós: Não Temas!

Silvio Stumpf
Superior da Casa de Missão de São Paulo

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Formacao JMJ Mar a Dentro – março de 2018

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