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Artigos › 29/10/2020

A água viva do Espírito Santo rega o jardim interior

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A vida interior ou de oração tem como objetivo promover um contínuo contato com Deus. Esse relacionamento entre o ser criado e o seu criador aprofunda-se por meio de um crescimento da graça santificante. É ela que permite a intimidade de Deus com a alma e a inabitação da Santíssima Trindade. Por isso, temos analisado, com Santa Teresa D’Ávila, os diversos modos deste contato de Deus com o ser humano em oração e como, segundo a doutora da Igreja, pode ser comparado ao regar de um jardim ou horto sedento por dar os frutos das boas obras.

Neste artigo, veremos o terceiro modo de regar o Jardim. Se os dois primeiros modos equivalem a retirar a água de um poço com maior ou menor dificuldade, nas palavras de Santa Teresa, o terceiro modo de irrigação vem “de um rio ou arroio: deste modo, se rega muito melhor, que fica mais farta a terra de água e não se tem necessidade de regar tão amiúde, e é menos trabalho do hortelão” (Livro da Vida, 11,7). Ou seja, a água é muito mais abundante se utilizarmos de um rio ou riacho para levar água até o horto ou jardim. O sistema é muito conhecido: cava-se um conjunto de canais em todo o local e, utilizando-se do próprio desnível em relação a um riacho, controla-se a entrada de água nos canais com uma pequena comporta.

As vantagens são evidentes! Se existe um trabalho inicial de cavar todo o percurso, não há o esforço diário de puxar baldes e baldes de água manualmente. A vazão da água se torna muito mais abundante e rápida, percorrendo todo o sistema com fartura e rapidez e fazendo com que todo o jardim seja contemplado. Realiza-se aqui a palavra do salmista: “como a árvore plantada nas margens das águas correntes: dá fruto na época própria. Sua folhagem não murchará jamais” (Sl 1,3).

O que acontece no jardim interior

Já percebemos como a oração de meditação foi se sublimando e simplificando cada vez mais. Não são necessários mais grandes discursos, extensos estudos ou muita preparação. A alma se habitou a buscar rapidamente a presença de Deus e deleitar-se em sua proximidade. Segundo Santa Teresa, a água já está alta no poço! É fácil retirá-la!

Esse é o máximo que o ser humano pode chegar com seu próprio esforço, enquanto usufrui da correspondência ativa de Deus. No entanto, para Deus, isso está muito longe de ser o máximo possível em possibilidade de união e derramamento de amor. Ele, e somente Ele, pode proporcionar ainda mais água à terra da alma que Ele mesmo criou como sedenta.

Até então a fonte da oração era natural: o ser humano em busca de Deus. Inicia-se aqui as fontes sobrenaturais da oração, onde Deus age diretamente. Essa oração sobrenatural, que examinaremos com mais cuidado no próximo artigo, também é conhecida como oração infusa (pois é “colocada dentro” pelo próprio Deus) ou contemplação.

Na metáfora do jardim, não é mais necessário buscar a água por seu próprio esforço, agora existem canais, aquedutos, onde a água é enviada pelo próprio Deus, verdadeira fonte de toda graça (Tg 1,17). Ao homem, basta abrir a comporta: colocar-se em oração. Mais tarde veremos que, sendo Ele mesmo toda a fonte, Deus assume o comando desta comporta inúmeras vezes, enchendo a alma mesmo quando esta não está em seus momentos pré-determinados de oração pessoal.

Conexão firme da alma com Deus

Santa Teresa trata desta oração de recolhimento infuso em várias de suas obras, explicando um pouco em cada uma. Escreve no “Livro das Moradas ou Castelo Interior” (4M 3,9) que “Assim como se entende claro um dilatamento ou alargamento na alma, à maneira de como se a água que mana de uma fonte não tivesse corrente, senão que a mesma fonte estivesse lavrada de uma coisa que quanto mais água manasse maior se fizesse o edifício, assim parece nessa oração”. Ou seja, essa nova maneira de regar a alma, promovida pelo próprio Senhor de todas as coisas, não só a enriquece e alimenta, mas conduz ao seu alargamento e melhoramento. À medida que a água passa, ela mesma aumenta a quantidade e abrangência dos canais, promove nossas virtudes, fortalece as existentes. Ao homem, “já lhe parece que tudo poderá em Deus”.

Nos escritos das “Relações”, ela explica que “A primeira oração que senti, a meu parecer, sobrenatural (que eu chamo o que com minha indústria nem diligência não se pode adquirir ainda que muito se procure, ainda que se disponha para isso e deva-se fazê-lo), é um recolhimento interior que se sente na alma, que parece que ela tem lá outros sentidos, como cá os exteriores, que ela em si parece querer-se apartar-se dos bulícios exteriores; […] Aqui não se perde nenhum sentido nem potência, que tudo está inteiro, mas o está para empregar-se em Deus” (Relações 5,3).

Essa oração de recolhimento infuso (ou sobrenatural) é, portanto, um momento onde nota-se que Deus estabelece uma conexão tão firme com a vontade da alma que ela se sente atraída e ligada. Recolhida em si mesma, toda atenta a Deus. Como tão bem esclarece Santa Teresa, não existe aqui nenhuma forma de inconsciência ou transe, “tudo está inteiro”, todos os sentidos permanecem ativos e atentos.

Na prática, a alma percebe que está toda recolhida, pronta para estar na presença de Deus e rezar enquanto também entende que isso não é obra dela. Por mais que sempre tenha se esforçado para estar concentrada na oração, percebe que, agora, o conseguiu não por esforço próprio, mas por graça. Isso é claramente sentido quando à sua volta os barulhos se multiplicam, mas nada é capaz de retirar sua atenção amorosa, se ela não o permite.

Santa Teresa compara nossos sentidos como ovelhas dispersas que, inesperadamente, escutam o assovio do Bom Pastor e, ordenadamente, voltam-se com atenção total. A recomendação feita às suas filhas espirituais (Caminho de Perfeição 29,7) de procurar assenhorar-se do próprio ser, ganhando-se para si mesmo, aproveitando-se dos sentidos para o interior, para se aproximar cada vez mais de Deus, falando com Ele, ouvindo-O, é agora plenamente realizado, sem esforço, pelo próprio Deus na oração de recolhimento infuso.

É Deus quem dá os graus de oração

Que fique registrado, porém, o que ela mesma procura ensinar: Deus dá esses graus de oração àqueles que por muito tempo se esforçaram e buscaram. O que, traduzindo para a linguagem que estamos utilizando aqui, significa que: a oração infusa, embora seja um dom gratuito de Deus, só é recebida, e recebida frutuosamente, depois de uma boa preparação nos fundamentos anteriores que exigem o esforço persistente do homem.

Com a atenção atada ou ligada a Deus, o cristão está pronto para receber grandes coisas. Acabaram-se as distrações pelo caminho, a água desperdiçada no trajeto entre o poço e o jardim. Acabaram-se os intervalos de rega, a intermitência entre a pouca água jogada e o tempo de enchimento de um novo balde de água. A água é fluente e ininterrupta, ela mesma abre novas passagens, promovendo o crescimento de áreas no jardim que o jardineiro nem sequer sabia que existiam!

Diante de tanta novidade trazida por este novo modo de regar, diante de tanta eficácia percebida, será que ainda pode-se falar em oração? Afinal, se a oração é a elevação da mente a Deus, vê-se que agora é o próprio Deus que desce para protegê-la e incentivá-la. E, diante de tanta novidade, inicia-se uma nova forma de estar em oração, tão superior que recebe um novo nome: contemplação. No próximo artigo, procuraremos examinar com mais detalhes do que se trata.

Por Flávio Crepaldi, via Canção Nova

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