Comunidade Católica Mar a Dentro

Artigos, Artigos gerais, Geral › 24/10/2012

Identidade e Fundamentos da Fé: o credo

Introdução

Hoje vivemos uma fé exposta a todo tipo de intempérie e o ato de crer não é nada evidente, pelo contrário, é bastante obscuro até mesmo para quem crê. Crer se opõe a saber, pois o saber da certeza baseada em evidências. Na fé temos menos segurança porque a fé pertence à ordem da convicção íntima. A fé pertence à ordem da convicção pessoal, daquilo que não se discute e tão pouco se pode compartilhar.

Sempre houve no mundo, certo ateísmo existencial, mas pela primeira vez na história, a partir do século XIX surgiu um ateísmo sistemático e militante.

A ideologia contemporânea confia no saber/ciência e se mostra desconfiada com as crenças, às quais reputa inferior. No entanto o ato de crer faz parte de nossa vida cotidiana e até mesmo da investigação científica. Mas a forma mais visível de crer é o credo religioso.

Hoje a fé das grandes confissões cristãs ou Igrejas está colocada em segundo plano, sobressaem a fé das seitas. Por isso, todos nos interrogamos sobre a fé e o ato de crer. Qual sua identidade ou fundamento? Qual o núcleo da fé? Qual a origem da fé?

Torna-se necessária uma “teologia fundamental da fé”, se podemos dizer assim.

Origem da nossa fé

A fé religiosa, ou seja: “a confiança total do homem em um Deus com o qual se encontrou pessoalmente”, nasceu entre os hebreus, neste pequeno povo se deu um fato de grandeza sem igual: o nascimento da fé com sua primeira testemunha: Abraão.

“Ele acreditou no Senhor e o Senhor o considerou como um homem justo” (Gn 15,6). A originalidade aqui está em aceitar um tipo de relação com Deus que seja relação pessoal, relação que começa com a confiança depositada por Abraão na palavra de Deus. Ele acreditou na promessa que Deus lhe fez, na chamada que tinha escutado. Deus falou a Abraão (cf. Gn 15,1-21). Ao amanhecer Abraão teve de “nascer-sair” para o novo e ao entardecer teve se entrar na confiança absoluta na promessa de Deus. Nessa travessia soemnte Deus é seu escudo (cf. v. 1).

No gesto da Abraão aparece o cerne da questão fundamental que a fé propõe e que não é a existência de Deus. “A verdadeira questão da fé inverte os termos: não se trata de crer que Deus existe, mas em crer que o homem existe para Deus” (B. Sesbouè, Creer, S. Pablo, Madrid,2000,p. 30). Podemos colocar a questão de outra maneira ou seja partindo das questões mais sérias que a fé nos propõe: Deus se interessa pelos homens? Deus pode intervir na história? O fato é que a fé de Abraão e seus descendentes respondeu SIM a estas perguntas. O povo da Antiga Aliança fez da fé um modo de viver: “Se não crerdes não podereis subsistir” (Is 7,9). Esta foi a experiência fundamental que deu origem à fé judaica que resultou na tradição cristã, a qual compreende a fé como a atitude daquele que apoia em Deus e nele confia, respondendo a suas expectativas, como quem construiu a casa sobre a rocha (Mt 7, 24-27).

A fé evoca a fidelidade de Deus que requer a nossa resposta como fidelidade a Ele. No âmbito desta fé se enumeram as maravilhas realizadas por Deus em favor de seu Povo: o passado é garantia do futuro. Esta fé é selada pela Aliança, Aliança que é iniciativa de Deus à qual o homem corresponde.

Jesus autor e consumador da fé (Hb 12,2)

No Novo Testamento o termo fé (250 vezes) e crer (300 vezes) convergem para Jesus Cristo, realização das promessas e manifestação total de Deus. Jesus da origem à fé porque é revelador definitivo de Deus (Hb 1, 2-3) e leva a fé a seu cumprimento porque é o executor do projeto de salvação consumado na cruz. Crer em Jesus é comprometer-se com Ele e colocar-se à sua disposição, colocando nele sua confiança.

A carta ao Hebreus explicita o cumprimento da Antiga Aliança em Jesus Cristo na sequência da fé vetero-testamentária e afirma: “O justo vive pela fé” (Hb 2,4) e “É impossível agradas a Deus sem a fé” (Hb 11,6). A fé é “cristã” enquanto aceita Cristo como mediador e plenitude da Revelação. Na sua ressurreição Jesus derrota a morte e abre as portas da vida de forma definitiva. Nele a vida vence: é a vitória de Deus! “A fé tem um conteúdo: Deus se comunica, este eu de Deus se mostra em Jesus cristo e é interpretado pela confissão de fé, no credo” (cf. Bento XVI ao Sínodo dos bispos em 09.10.2012).

O que Jesus pede aos que nele acreditam é o que somente Deus pode pedir. Somente se acreditarmos que Jesus é Deus, poderemos segui-lo e fazer o que ele mandou. Através de sua encarnação, de sua humanidade, o que Jesus pede é um ato de fé em Deus que nele se manifesta. Para acreditar em Jesus, portanto, se deve crer no que ele disse, e para crer no que ele disse se deve crer em tudo o que ele disse. E crer aqui não é somente “ter por verdadeiro” o que ele disse, mas “colocar nele a confiança”. A fé cristã tem seu conteúdo concentrado na pessoa de Jesus o qual viveu, morreu e ressuscitou dentre os mortos.

Santo Agostinho colocará três degraus para a fé cristã; a) Crer que Deus existe; b) Crer na palavra de Deus c) Entregar-se a Ele e confiar a ele o sentido de nossa vida, fazendo dele nossa rocha firme, fazendo nosso destino dirigir-se na direção de corresponder à aliança que ele nos oferece. No cerne da pregação de Jesus está o Reino de Deus o qual podemos exprimir como união em nós da fé, esperança e amor. A fé age pela caridade, são as duas colunas da evangelização. A fé exprime-se no amor, tornando-se amor-serviço que brota da cruz e se manifesta na força da ressurreição. A fé é a alma da caridade. A fé, portanto, vivida assim, salva. “A fé produz a união com Deus, pela fé é iniciada em nós a vida eterna” (Santo Tomás de Aquino in Exposição sobre o Credo, Introdução).

A fé não termina na pregação da igreja nem na palavra dos Apóstolos, mas no próprio Deus que se revelou em Cristo.

O diálogo da fé

Quando o fiel cristão diz: Creio em Deus, expressa a resposta de fé a uma tríplice iniciativa de Deus em seu favor. A iniciativa do Pai criador que está na origem de tudo, do Filho que veio em nossa carne para nos redimir com o evento pascal, e o Espírito Santo que deu à sua Igreja. No Rito do Batismo desde o início da Igreja, temos então o diálogo em forma de três perguntas e três respostas. Este diálogo mostra que Deus tem a primeira palavra, é dele a iniciativa de salvar criando e criar salvando.

O batismo no início era realizado “em nome de Jesus” (At 8,16), mas esta fórmula equivale à formula trinitária que acabou prevalecendo no Símbolo ou Credo batismal ( cf. H. Denzinger, Enchiridion Symbolorum, 1ª parte). Em Jesus Deus se manifesta totalmente, nele a Revelação atinge seu cume. A Revelação histórica de Jesus Cristo é o conteúdo formal da fé, o mistério Pascal é o ponto de partida da fé, esta é a primeira profissão de fé da Igreja (1Cor 15, 3-5; 15, 2.14). Jesus revela a Trindade!

Por isso nosso credo é trinitário. O Credo rezado na liturgia Eucarística como o temos hoje, somente aparece entre os séculos IV e V e foi introduzido definitivamente na Igreja de Roma no século X como símbolo batismal, em substituição ao credo niceno-constantinopolitano. Manteve-se intacto até hoje devido a seu caráter narrativo, e à convicção inicial de que teria sido composto pelos apóstolos. A fé cristã está determinada por um conteúdo, sendo por ele determinada também. No credo temos o conteúdo da fé.

Conclusão

É preciso considerar a eclesialidade da fé. A fé não é somente a aceitação de um testemunho exterior de Deus, mas uma entrega a Deus mesmo em pessoa. Tem um aspecto cognoscitivo e outro “fiducial”: de confiança total em Deus. Esta fé enquanto fundamento da comunidade eclesial não é patrimônio do indivíduo, mas pertence a toda a Igreja como um depósito a ela confiado. A Igreja é uma testemunha divinamente instituída e uma coletividade que crê. A Revelação cristã é transmitida de maneira confiável na Igreja e mediante a Igreja (cf. in A. Dulles, Il fondamento delle cose sperate – Teologia della fede Cristiana, Queriniana, brescia, 1997). A fé cristã é contrária a todo individualismo, ela é comunitária, eclesial, porque é trinitária. No futuro a fé só será possível em grupo \9comunidade) e de um modo consciente e responsável.

É preciso considerar a fé e a graça. Fé é a forma de conhecimento pessoal mediante a qual, sob o impulso da graça, acolhe-se a Revelação de Deus em Jesus Cristo. “A fé cristã é concebida primariamente à luz da graça. Ninguém pode acolher a palavra de Jesus como Palavra de Deus se o Espírito não age nele, mostrando que aquela palavra é autenticamente Palavra do Pai” (R. Fisichela, in Dicionário Teológico Enciclopédico , Loyola, S. Paulo, 2003, p 291). A graça está intimamente relacionada ao ato de crer realizado pelo que crê porque a fé é dom de Deus. Não se pode dissociar a fé da oração. A fé orante indica a primazia da ação de Deus com a qual nós colaboramos.

É preciso dar testemunho da fé. “Faz-se necessária a personalização da fé, é necessário que cada cristão cumpra o caminho para integrar a fé na própria individualidade com escolhas decisivas e corajosas”… Cada decidido ato de fé de nossa parte, vale por cem atos de incredulidade ou de medo que ocorrem ao nosso redor. Quando pensamos assim , somos muito mais capazes de viver em um mundo secularizado ou incrédulo, e de realmente influenciá-lo. Idem p. 55. (Card. Carlo M. Martini, in Onde está teu Deus, Loyola, 1994, p. 55). A palavra “professio” tem sentido de apresentar uma realidade para que ela seja vista; já a palavra “confessio” evoca o fato de dar testemunho disnte de um tribuna, tem ligação com o martírio(sofrer pela fé).

Por Dom Pedro Carlos Cipolini – Bispo de Amparo (SP)

 

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

maradentro@maradentro.com.br

(+55) 17 3222-4436

Newsletter

Receba as notícias no seu e-mail